Como publicado em: Revista do Serviço ATM, Vol. IV p.69
Serviço de Diagnóstico e Orientação a Pacientes com Desordens Temporomandibulares da Faculdade de Odontologia / UFJF
Aix Roberto Francischetti Rocha *
João Carlos Borges da Silva **
* Psicanalista, Membro do SERVIÇO ATM – F.O. /.UFJF
** Médico, Psicanalista, Mestre em Teoria da Literatura
RESUMO
O presente trabalho foi apresentado na XIII Jornada Odontológica Brasileira de Estudos sobre Pacientes Especiais realizada em junho de 1999. Tem como base a experiência com um enfoque psicanalítico, dentro do SERVIÇO ATM da F.O. /UFJF. Seu objetivo foi chamar a atenção para a especificidade de cada paciente, quando apresenta UM quadro de dor crônica. Fica a intenção de, através do percurso traçado, despertar todo e qualquer profissional para a importância da subjetividade do paciente, às vezes impaciente, para o sucesso ou fracasso dos tratamentos destes sujeitos, especiais como todo o são.
Palavras-chave: Desordem Temporomandibular e Psicanálise, Dor Crônica, Dor e Psicanálise, Pacientes Especiais, Sujeito.
ABSTRACT
This study was presented at the XIII Jornada Odontológica Brasileira de Estudos sobre Pacientes Especiais (the XIII Brazilian Odontological Journey of Special Patients’ Studies) in June, 1999. It has as its base the experience with an psychoanalytic focus at “SERVIÇO ATM” of the F.O./UFJF (“TMJ Service” of the Faculty of Odontology/Federal University of Juiz de Fora). The aim was to call attention to the specificity of each patient when there’s A chronic pain picture. Through the defined course of action, the intention is to alert each and every professional to the significance of the patient’s subjectivity (a patient sometimes impatient) for the success or failure of the subjects’ treatment, considering all of them as special as they are.
Keywords: Temporomandibular Disorder and Psychoanalysis, Chronic Pain, Pain and Psychoanalysis, Special Patients, Subject.
INTRODUÇÃO
Agradeço aos presentes o interesse que demonstram na abordagem dos aspectos psicológicos da dor, o que certamente motivou o convite que me trás aqui. Principalmente quando tal coisa diz respeito aos ditos pacientes especiais, o que, pelo menos representa algo que concerne ao Sujeito em si – ente bio-psico-social que sofre –, às vezes comprometido como causa ou como vítima.
Observando a ordem da Jornada, vimos que muitos falaram ou ainda o farão, e sob as mais diversas óticas físicas e orgânicas envolvidas. Algumas expressam a dor, outras o seu silencio, às vezes até queixosas e, por isto mesmo, uma dor dita ainda mais doída.
Para falar desse Sujeito, vou partir do final do século passado, quando Freud, muito envolvido com a neurologia, mais dedicado às pesquisas, teve a oportunidade de…
VETORES
Freud, em 1893, aparentemente movido por uma sugestão de Charcot, conclui e publica um estudo comparativo das paralisias motoras orgânicas e histéricas. Desse famoso artigo, considerado um divisor de águas entre os escritos neurológicos e psicológicos de Freud, destaca-se apenas um aspecto de sua II parte, escrita provavelmente muito antes da publicação e que servirá de vetor ao nosso propósito.
A histeria, (…) tende a produzir seus sintomas com a máxima intensidade possível (…). Sabemos (…) com que freqüência ocorrem as anestesias profundas, absolutas, na histeria, em comparação com a qual as lesões orgânicas só conseguem reproduzir um pálido esboço1.
Após estabelecer uma acurada distinção entre os distúrbios da sensibilidade nas paralisias orgânicas e histéricas, Freud conclui:
Esse comportamento da sensibilidade, que é diferente nas lesões orgânicas e na histeria, dificilmente pode ser explicado, na atualidade. Parece que aqui temos um problema, cuja solução talvez possa projetar alguma luz sobre a natureza íntima dos fenômenos2.
Note-se que estamos, no mínimo, na última década do século passado quando tal questão se declara. Em 1886, ou seja, na década anterior, ela aparecia como resposta a um desafio.
Quem não quiser buscar e enfrentar o texto freudiano pode obter quase o mesmo impacto no filme de Johm Huston sobre Freud. Há uma cena em que uma agulha trespassa pele e tecido subcutâneo de certa mulher sem que ela esboce a mínima reação de incômodo. E não há qualquer problema neurológico envolvido nisso. Aquela Mulher, portava-se como se não estivesse sendo atingida. Era portadora de uma anestesia dita histérica.
Cerca de seis meses depois de seu retorno de Paris, Freud apresentou perante a Sociedade de Medicina de Viena um artigo sobre a histeria masculina – cujo texto infelizmente se perdeu. A recepção foi desastrosa e, além disso Meynert desafiou-o a apresentar ali um único caso capaz de corroborar suas afirmações. Foi difícil encontrar um caso, ante a recusa dos médicos mais antigos do Hospital Geral de conceder-lhe acesso ao material de que dispunham, mas graças a um jovem laringologista encontrou noutro lugar o paciente adequado e apresentou-lhe o quadro à mesma Sociedade pouco mais de um mês após a requisição ridicularizadora. O relato da sessão é feito nos termos do próprio Freud:
Por esse paciente devo agradecer à gentileza do Dr. Von Beregszászy, que o enviou a mim para confirmação do diagnóstico que havia feito. O paciente, August P., gravador, tem 29 anos, é a pessoa que está diante dos senhores: um homem inteligente, que de pronto se ofereceu para ser examinado por mim, na esperança de conseguir uma rápida recuperação3.
E, não sem antes descrever os pontos principais da história familiar e própria do sujeito em questão, Freud aponta suas peculiaridades:
Agora examinemos o paciente: um homem bastante pálido de compleição média. (…) Quando comprimo o ponto de saída dos nervos supra-orbital, infra-orbital ou mento, do lado esquerdo, o paciente volta a cabeça com uma expressão de dor intensa. Podemos, portanto supor haver uma alteração nevrálgica no trigêmeo esquerdo. Também a abóboda craniana é muito sensível à percussão na sua metade esquerda. A pele da metade esquerda da cabeça comporta-se, no entanto, de modo muito diferente do que esperávamos: está completamente insensível a estímulos de qualquer espécie. Posso aplicar-lhe alfinetadas, beliscá-la, torcer o lobo da orelha entre meus dedos, sem que o paciente chegue sequer a perceber o contato4.
1 FREUD,S. Alguns pontos para um estudo comparativo das paralisias motoras orgânicas e histéricas. ESB, v. I, p. 228
2 Id., ibid. p. 230
3 Id., ibid. p. 59
4 Id., ibid. p. 62
Freud nos conduz, por cem anos, ao universo do Sujeito a quem concerne o sentir, seja a dor que o atinge de tal ou qual ordem, seja de tal ou qual intensidade, seja para acentuá-la ou destituí-la de imperativos. A anestesia ou hiperestesia histérica institui um fato: a dor deve suas características àquele no qual incide. Trata-se, efetivamente, de uma radical mudança de perspectiva. Colocar no centro da questão a lógica do Sujeito, em seus aspectos necessariamente próprios e intrínsecos frente a dor, e não, como pretende a evidência do padrão fisiopatológico. Sendo a Dor algo que se impõe absolutamente ao sujeito, como se este devesse, pura e simplesmente, asujeitar-se à sua tirânica presença, é preciso acentuar que é justo aí que o Homem torce os ditames da técnica terapêutica, precisamente onde e quando sente a DOR como SEU problema especifico – ou então como se explicaria que um qualquer sujeito se recusasse a levar adiante exatamente aquele determinado tratamento que promete livrá-lo das dores?
DIACRONIA
A dor e o medo, além de sua tendência à conjunção, são muito provavelmente os mais primitivos sofrimentos com que o Homem se depara ao longo de seu percurso, e diante dos quais, ao contrário do que ocorria com o frio e a fome, mostrou-se inapto para eliminar, por força de ato ou mera vontade, reconhecendo aí algum limite à sua capacidade.
Para tanto, conferiu-a àqueles que, dentre os semelhantes, pareciam capazes de conjurar os poderes além dos homens – feiticeiros, pagés, curandeiros, enfim –, cobrindo-os não só de direitos e regalias, mas do extremo dever de impedir os efeitos do tormento.
PROPOSIÇÕES
Considerar a singularidade do Sujeito como Agente ou paciente – Sujeito de sua dor; sujeito à sua dor –, envolve um passo tão simples de enunciar quanto difícil de transformar em ato, ou seja, de consubstanciar-se em efetiva atitude: o importante é o um a um. Para a psicanálise, desde seus tateantes inícios, este ponto, como se percebe desde o primeiro Freud, nunca foi fonte de vacilo. Pode-se, num dado momento da pesquisa, desconhecer os porquês, como o rigor freudiano admite quando diz: “parece que aqui temos um problema, cuja solução talvez possa projetar alguma luz sobre a natureza íntima dos fenômenos”; mas sabe-se, desde então, que O UM não se mede pela suposta média dos outros.
O sujeito à dor – contra tudo e quanto lhe imponham ou determinem –, é o sujeito da sua dor. E a ela reage com o que propicia a sua singularidade: submissão, oposição, revolta, obediência, resistência, etc.
A dor não é uma entidade em si, mas algo que ocorre a um determinado ser humano e, quando se pretende abordá-lo em sua dor, ele não a reconhece como fato concreto e estabelecido –conforme dizem os chamados especialistas –, sem que considerem o que sua própria voz tem a contribuir para os esforços do tratamento.
Pode-se perguntar então a quem interessa esta particularização de cada um? Interessa, e muito, a quem pretende que o paciente – e aprendeu isso ao longo da clínica – seja sempre específico em sua dor.
Mas este é um congresso onde se deve discutir as abordagens específicas, ou melhor ainda, peculiares, aos pacientes considerados especiais. Acho que devo afirmar algo a respeito: todo paciente é especial. A particularidade não é a do paciente, mas sim a do Sujeito; é, portanto, singular, é de cada um, isto é, nem mais nem menos específica a cada um. Assim, não é muito cabível estabelecer que determinado paciente necessite consideração especial antes de admitir um princípio básico: todo e qualquer cliente é o principal fator de sua própria reabilitação. Só então resgata-se o detalhe que identifica e nomeia este ou aquele – ou alguém propriamente dito – por sua voz e timbre e inflexão e compleição pessoais.
O sujeito é contado, ou melhor, levado em conta, um a um, e na exata medida em que tal fato for compreendido devida e efetivamente. Assim, os que são portadores de uma certa peculiaridade serão tratados como verdadeiramente o são: Sujeitos absolutamente singulares a serem percebidos na sua própria forma de estarem diante de si, de seu percurso, de sua dor, do contexto em que se inscrevem no mundo humano.
Este, desde sempre, impõe certos e complexos limites, ante os quais alguém, posto frente a frente com a dor e o medo, estabelece suas peculiares formas de dispor-se a enfrentar as intromissões do Real e seus incabíveis despropósitos.
Ouso repetir, como convém ao caso: toda dor é específica e diz respeito especialmente a UM determinado sujeito e se esse sujeito, além de sua especial condição de UM, possui ainda o título de ESPECIAL, então deve-se atendê-lo com o devido cuidado à sua inequívoca especificidade mais intrínseca. Mas isso só será possível quando, em primeira instância, se consolidar uma mentalidade: o clinico apreender aquele que se submete à sua atuação como irredutivelmente Um, contra todas as tendências meramente estatísticas. Quem trata de alguém não trata de algo, quem trata de algo não trata de alguém.
Este um a um, dentro da noção estrutural, implica, nada mais ou nada menos, numa revolução radical, ou seja, aquela que toca as raízes de um determinado modo de pensar. A interpretação que o sujeito faz da sua dor e como ela fala de si através da pessoa que a expressa, constituem a única realidade que lhe especifica, que lhe dá sua identidade e pode produzir incômodo ao clínico que escuta o seu relato ou a sua queixa. E, por isso, a posição de escutá-la, de deixar que o sujeito se coloque nela, poderá fazer o clínico se deparar com uma dimensão da dor que a coloca para além do orgânico, à qual constitui para ele o limite próprio de sua inscrição profissional.
UM FATOR A MAIS: A questão da Cronicidade
Tudo o que se disse até aqui faz referência, no mais das vezes, às dores de caráter agudo. Não são elas, entretanto, as mais problemáticas, as que envolvem mais intimamente o sujeito e sua dor. Deve-se considerar assim, a possibilidade desta dor, em conseqüência de uma enfermidade que se arrasta por muito tempo, tornar-se crônica.
A cronicidade da dor tem a participação preponderante do sujeito e isto pode ser comprovado quando observamos que tal dor passa a ser, praticamente, o sujeito, a falar por ele. O Sujeito e a Dor se entrelaçam e isto tem necessariamente conseqüências familiares e profissionais, envolvendo às vezes até mesmo ganhos secundários. Retomamos então a questão do sujeito da sua dor, do sujeito à sua dor.
Numa dimensão estritamente clínica, mais especificamente a dos pacientes com disfunção da ATM, podemos falar dos frutos da nossa experiência na interrelação psicólogo / odontólogo.
O sujeito que chega para ser atendido, apresenta na maioria dos casos, um quadro de dor crônica. Há quase sempre um relato de inúmeros e diversos tratamentos e, na maioria das vezes com pouco sucesso, isto é, com pouca redução no quadro de dor, levando o sujeito a se sujeitar – saindo assim do seu lugar de sujeito, do um a um da sua dor , daquele que tem responsabilidade em sua instalação e, por conseqüência, também na sua remoção – às prescrições do clinico.
Quando paramos com o raciocínio puramente orgânico e nos propomos a escutar este paciente como “um”, a sua dor como única, estamos convidando-o a falar, falar de si. Este é o primeiro passo para resgatar a sua condição de sujeito, de Sujeito da sua dor na sua especificidade. No caso da DTM, onde o quadro de dor crônica é muito encontrado, esta dor fala pelo sujeito, fala o seu sofrimento, os seus conflitos e reivindica uma diferenciação: ela é sempre maior, mais intensa, mais doída que a do outro; ela é diferente, é especial.
CONCLUSÃO
Onde estão presentes um sujeito e uma dor, estando este atemorizado e diminuído por ela, há sempre algo complexo em cena. Nem sempre, ou melhor quase nunca, apenas as questões e fatores orgânicos determinam todo o quadro, já que o próprio sujeito, esse termo que teima em se intrometer em tudo que lhe diz respeito, faz aí uma diferença. E é essa diferença que não pode deixar de ser notada.
Se a dor é aguda, se pega o sujeito de surpresa e parece que vai deixa-lo tão logo ele tome as primeiras e devidas providências para livrar-se dela, então é possível que ele apenas se submeta a um tratamento sem manifestar-se demais durante o seu transcurso. Mas, se a dor é crônica, como costuma acontecer nas disfunções da ATM, aí é praticamente impossível que o sujeito não tenha nada a dizer sobre aquilo de que padece, como padece, quanto padece, e até fazer os mais diversos usos de seu transtorno.
Para o clínico, deve ficar claro que seu paciente não é mais apenas isto. Ele age, ele diz, ele colabora, ele resiste.
A experiência interdisciplinar no Serviço ATM, tem servido para incrementar a colaboração, a co-participação de profissionais – no caso, psicólogo e odontólogo – na recuperação do sujeito como um ente integral. Assim, uma disfunção ATM, uma DTM, é abordada em cada um conforme cada um. Conforme queremos demonstrar.
ENDEREÇO PARA CORRESPONDÊNCIA
Aix Roberto Francischetti Rocha
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REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
1 FREUD, S. Alguns pontos para o estudo comparativo das paralisias motoras orgânicas e histéricas. Rio de Janeiro: Imago, ESB. v. I, p. 223-39, 1977.
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6 LOBATO, O. O Problema da dor. In: MELO FILHO, et al. Psicossomática hoje. Porto Alegre: Artes Médicas, cap. 16, p. 165-78, 1992.
7 OKESON, J.P. Considerações Gerais no Tratamento das Desordens Temporomandibulares. In: ___. Fundamentos de Oclusão e Desordens Temporomandibulares. 2. Ed. Rio de Janeiro: Artes Médicas, cap. 2, p. 245-65, 1992.
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Data de Publicação do Artigo:
24 de Fevereiro de 2006