Como publicado em: Revista do Serviço ATM, Vol. IV p.17
Serviço de Diagnóstico e Orientação a Pacientes com Desordens Temporomandibulares da Faculdade de Odontologia / UFJF
Deborah Matos Venancio da ROCHA*
Maria Inês da Cruz CAMPOS**
* Aluna Bolsista do Serviço-ATM – F. O. /UFJF
** Cirurgiã-Dentista, especialista em Patologia Bucal – FO / UFRJ
RESUMO
O Lupus eritematoso Sistêmico (LES) é uma doença inflamatória crônica que acomete diversos órgãos e sistemas, inclusive o sistema músculo-esquelético. O objetivo desse estudo foi avaliar a prevalência de sintomatologia de Desordem Temporomandibular (DTM) em pacientes lúpicos. O sinal e o sintoma mais encontrados respectivamente, foram edema articular e dor muscular à palpação. Esse estudo buscou enfatizar a necessidade de cuidados odontológicos aos pacientes lúpicos visto que houve alta prevalência de sintomatologia de DTM nos mesmos.
Palvras-chave: Desordem Temporomandibular, Lupus Eritematoso Sistêmico, Epidemiologia.
ABSTRACT
The Systemic Lupus Erythematosus (SLE) is a inflamatory disease which involves varied organs and systems, including the musculoskeletal system. The aim of this study was to evaluate the prevalence of Temporomandibular Disorder (TMD) symptomatology in SLE. The sign and symptom most common were, in this order, edema and muscular ache. This study intend to emphatize the importance of dental assistence in SLE due there was a high prevalence of TMD symptomatology in SLE patients.
Keywords: Temporomandibular Disorder, Systemic Lupus Erythematosus, Epidemiology.
INTRODUÇÃO / FUNDAMENTOS TEÓRICOS
De acordo com OKESON17 (2000), uma parte significativa da população sofre de desordens que podem ser relacionadas a fatores oclusais e/ou distúrbios funcionais do sistema mastigatório. Cerca de 50 a 60% da população apresentam sinais detectáveis que podem estar associados às desordens das articulações temporomandibulares (ATM). DTM é um termo coletivo que abrange vários problemas clínicos envolvendo a musculatura da mastigação e/ou a ATM e estruturas associadas como a região cervical. Sua etiologia é multifatorial destacando-se como fatores etiológicos a má oclusão e o estresse emocional.
O LES, segundo SAMARA18 (1985), é uma doença inflamatória crônica do tecido conjuntivo, lesando vasos sanguíneos de pequeno e médio calibre, multissistêmica, que se caracteriza por exuberante formação de auto-anticorpos, o que a torna um modelo de doença auto-imune. Do ponto de vista imunológico, segundo MOREIRA & CARVALHO15 (1996), o LES manifesta-se através de alterações humorais e celulares que dão origem à excessiva e variada produção de anticorpos, alguns dos quais causam danos citotóxicos, enquanto outros participam da formação de imunocomplexos, resultando em inflamação tecidual de natureza imunológica.
Segundo KUBOTA et al.8(1990), o LES predomina em mulheres na proporção de 9:1 e 70% dos casos têm início entre os 15 e 40 anos de idade.
De acordo com CERRI et al.2 (1986), o LES apresenta remissões e exacerbações espontâneas, caracterizadas pela presença de auto-anticorpos múltiplos, por hiperatividade de linfócitos B e pela formação de imunocomplexos circulantes que participam dos mecanismos de lesão tissular.
O LES possui sintomas relacionados com múltiplos órgãos e sistemas como a pele, os rins e membranas serosas, segundo relato de CERRI et al.2 (1986) e KUMAR9(1992), além do comprometimento do sistema músculo-esquelético que é enfatizado por JONSSON et al.7 (1983), CERRI et al.2 (1986), KUBOTA et al.8 (1990) e KUMAR9 (1992). O envolvimento articular é a manifestação mais freqüente do LES estando presente em cerca de 95% dos casos em alguma fase da doença de acordo com JONSSON et al.l7 (1983) e KUBOTA et al.8 (1990).
CRUZ FILHO3 (1972), ao avaliar 56 pacientes, encontrou a artropatia como sintoma inicial do LES em 30% dos casos e, MARBACH11 (1979) enfatizou o envolvimento da ATM no desenvolvimento do LES. O acometimento articular e tendíneo no LES, segundo DONALDSON4 (1995), pode levar a deformidades articulares idênticas às observadas na artrite reumatóide. De acordo com JONSSON et al.7 (1983), como a artrite no LES pode envolver qualquer articulação do corpo, a ATM às vezes é afetada, levando o paciente a apresentar DTM.
MAKSIMOVSKII & GRININ12 (1995), estudando 75 pacientes com LES, detectaram envolvimento da ATM em 75%. JONSSON et al.7 (1983) estudaram o envolvimento da ATM em 37 pacientes com LES. Desses pacientes, 59% tiveram sintomas severos na ATM no passado e 14% tinham queixas atuais. No grupo controle, 16% dos pacientes apresentou sintomas severos no passado e 3% tinham queixas correntes. Radiograficamente, encontraram aplainamento em 22% dos pacientes com LES e 3% no grupo controle. Erosões foram encontradas em 11% no grupo experimental e 1% no grupo controle além da presença de osteófitos detectada em 3% nos pacientes com LES e em nenhum do grupo controle.
LIEBING & GOLD10 (1981), GREBRACHT & SHAPIRO5 (1982), TUGGLE22 (1985) e BADE et al.1 (1992) relataram casos clínicos de acometimento da ATM em pacientes portadores de LES. Já, MOK et al.16 (1998) num estudo com 38 pacientes verificaram que 12% tinham necrose avascular em alguma articulação e GRININ et al.6 (1999) num estudo com 285 pacientes,verificaram a existência de necrose asséptica da ATM em 4 pacientes.
Outro fator que poderia contribuir para desencadear DTM em pacientes lúpicos seria a presença de quadros depressivos e ansiosos, diagnosticados freqüentemente nesses pacientes, de acordo com MIGUEL FILHO et al.14 (1990). MELLO FILHO13 (1992) relatou que o LES costuma ser marcante e estigmatizante para quem o apresenta e THOMAZI JUNIOR et al.21 (1995) afirmaram que os problemas psicológicos são comuns nos pacientes portadores de LES. De acordo com estudo de SEGUI19 (2000), as desordens psiquiátricas e psicossociais ocorridas nos episódios agudos de LES são moderadas e decorrentes do impacto da atividade da doença nesses pacientes.
O presente estudo buscou avaliar a prevalência de sintomatologia de DTM em pacientes portadores de LES.
MATERIAIS E MÉTODOS
A amostra avaliada nesse estudo foi composta por 30 pacientes de ambos os sexos, com faixa etária variando entre 13 e 55 anos de idade, portadores de LES, devidamente diagnosticados por exames clínicos e laboratoriais segundo os critérios da American Rheumatism Association (ARA), em qualquer fase da doença. Esses pacientes encontravam-se em tratamento nos ambulatórios de Reumatologia e Nefrologia do Hospital Universitário da UFJF e da Fundação IMEPEN (Instituto Mineiro de Estudo e Pesquisa em Nefrologia). Os critérios para diagnóstico de LES, de acordo com a ARA e segundo SAMARA18(1985), estão enumerados no Quadro1, devendo o paciente preencher, pelo menos, quatro desses critérios.
Foi solicitado aos pacientes o preenchimento de uma ficha contendo a identificação e informações acerca da medicação utilizada por eles.
Para avaliação da prevalência de sintomatologia de DTM, foi realizado exame clínico seguindo o protocolo utilizado pelo Serviço de Diagnóstico e Orientação a Pacientes com Desordens Temporomandibulares (SERVIÇO ATM) da Faculdade de Odontologia da Universidade Federal de Juiz de Fora. Os sintomas e sinais avaliados estão enumerados, respectivamente, nos Quadros 2 e 3. O exame clínico foi realizado pelo mesmo examinador para padronização dos dados.
1. Eritema malar, em “asa de borboleta”
2. Lupus discóide;
3. Fotossensibilidade;
4. Ulceração oral ou nasofaringeana;
5. Artrite, sem deformidade ou erosão;
6. Serosite (pleurite e pericardite);
7. Envolvimento renal (proteinúria e cilindrúria);
8. Envolvimento neurológico (convulsão e psicose);
9. Envolvimento hematológico (anemia hemolítica, leucopenia < 4.000 cel/mm3, linfopenia < 1.500 cel/mm3 e trombocitopenia < 100.000 cel/mm3);
10. Alteraçõs imunológicas (células LE, anticorpos Anti-DNA, anticorpos Anti-Sm, VDRL falso-positivo);
11. Anticorpos antinucleares (FAN);

1. Cefaléia;
2. Otalgia;
3. Zumbido / pressão no ouvido;
4. Dor nos olhos;
5. Cansaço ao mastigar;
6. Dor à palpação muscular. Foram palpados os músculos temporal, masseter, esternocleidomastóideo, trapézio, pterigoideo medial e lateral;
7. Dor à palpação articular com palpação intraconduto e extraconduto auditivo;
8. Bruxismo / apertamento.

1. Grau de abertura bucal. Foi considerada limitada a abertura que se apresentou abaixo de 40 mm;
2. Presença de estalido avaliado com estetoscópio;
3. Presença de crepitação avaliada com estetoscópio;
4. Presença de saltos e/ou travamento, observados durante a abertura bucal;
5. Desvio ou deflexão mandibular observados durante a abertura bucal;
6. Presença de desgaste dentário observado pelas facetas de desgaste;
7. Grau de excursão mandibular, após realização dos movimentos excêntricos da mandíbula (protrusão, lateralidades direita e esquerda);
8. Edema na região de ATM, avaliado durante a inspeção clínica.
RESULTADOS
A distribuição de sinais de DTM nos 30 pacientes portadores de LES examinados foi a seguinte: edema articular encontrado em 18 pacientes, perfazendo 60% da amostra, crepitação em 56,66%, desvio e desgaste em 46,66%, restrição do movimento mandibular em 43,33%, salto e/ou travamento em 36,66%, deflexão em 33,33%, estalido em 30% e limitação de abertura em 3 pacientes, ou seja, 10% da amostra (Gráfico 1)
Os sintomas de DTM nos pacientes lúpicos foram distribuídos da seguinte maneira: dor muscular à palpação foi o sintoma mais prevalente estando presente em 21 pacientes, ou seja, 70% da amostra, seguida de cefaléia e dor articular encontradas em 60%, zumbido em 40%, dor nos olhos em 36,66%, cansaço ao mastigar em 33,33% e otalgia assim como bruxismo ou apertamento em 8 pacientes, ou seja, 26,66% da amostra (Gráfico 2) .

DISCUSSÃO
A porcentagem de mulheres encontrada (Gráfico 3) dentre os portadores de LES, foi de 90%. Tal resultado também é citado no estudo de KUBOTA et al.8 (1990). De acordo com o mesmo autor, 70% dos casos têm início entre os 15 e 40 anos de idade. No presente estudo, cerca de 77% dos pacientes se encontravam na faixa etária entre os 13 e 40 anos de idade. A faixa etária mais acometida foi a dos 13 aos 20 anos de idade com 9 pacientes, ou seja, 30% da amostra, seguida das faixas etárias dos 21 aos 30 anos e dos 31 aos 40 anos, ambas com 23,33%, da faixa dos 41 aos 50 anos com 16,66% e, finalmente, da faixa etária acima dos 51 anos com 2 pacientes, perfazendo 6,66% da amostra (Gráfico 4).
JONSSON et al.7 (1983), afirmaram que as mudanças nas ATM de pacientes com LES podem ser uma complicação do tratamento com corticosteróides. Neste estudo, 21 pacientes, ou seja, 70% estava sob o uso de corticosteróides (Gráfico 5).
Os sinais clínicos mais encontrados nos pacientes lúpicos foram edema na região articular em 60% dos pacientes, seguido de crepitação da ATM em 56,66%.
De acordo com estudo de JONSSON et al.7 (1983) com 37 pacientes, nenhum paciente do grupo controle apresentou sinais na ATM, ao contrário de 41% dos pacientes com LES. Travamento, deslocamento, sensibilidade à palpação e dor no movimento mandibular foram achados exclusivos nos pacientes com LES.
O sintoma mais encontrado no presente estudo foi dor muscular à palpação em 70% dos pacientes. De acordo com SAMARA18 (1985), dor e miastenia podem existir em decorrência da própria doença ou secundários ao tratamento com corticóides e MOREIRA & CARVALHO15 (1996) citaram também a ocorrência simultânea de polimiosite, miastenia gravis ou fibromialgia. Cefaléia foi encontrada em 18 pacientes, ou seja, 60%. Segundo estudo de SFIKAKIS et al.20(1998) com 71 pacientes, a cefaléia é um sintoma freqüente nos pacientes com LES e coexiste com a ansiedade e a depressão na maioria dos casos.

CONCLUSÃO
Devido ao grande número de portadores de LES ter apresentado sinais e sintomas de DTM, esse estudo buscou enfatizar a necessidade que esses pacientes apresentam de cuidados odontológicos, devendo o cirurgião dentista se preparar para tal atendimento. Esses cuidados minimizariam o impacto do LES nesses indivíduos, melhorando sua qualidade de vida.
AGRADECIMENTO
As autoras agradecem á colaboração dos profissionais da Fundação IMEPEN de Juiz de Fora.
ENDEREÇO PARA CORRESPONDÊNCIA
Deborah Matos V. Rocha
Rua Floriano Peixoto, 796/306
Juiz de Fora- MG – CEP 36015-440 – Tel.:(32)32111252
e-mail: dmvr@terra.com.br
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Data de Publicação do Artigo:
24 de Fevereiro de 2006